terça-feira, 1 de Setembro de 2009

A sobrinha-neta e a tia-avó

Respirando o ar denso e citadino da miscigenada Lisboa, a sobrinha-neta, que raramente aparece para visitas familiares, experimentou dias peculiares. A tia-avó, cujos 71 anos e bronquite aguda não a afastam do trabalho duro diário, já não via sua sobrinha há muito e fez questão de exibir aos colegas de labuta, aquela que lhe trás boas recordações dos seus que moram longe.

A tia-avó sente-se sozinha, muitas vezes frágil, mas tem de ganhar o pão de cada dia, afinal o dinheiro da reforma dela e do marido - de 79 anos - "não chega para pagar as contas ao fim do mês". A casa é humilde, simples, pouco tem para entreter a jovem, que durante quatro dias se manteve desligada do seu mundinho e entretida entre os dias esgotantes da tia que apesar de respirar com dificuldade, sorria contente pela presença da tão esperada visitante.

- "Amanhã vais comigo para o trabalho, quero apresentar-te aos meus colegas e mostrar como é bonita a minha sobrinha-neta." Diz com voz doce enquanto ajeitava os óculos que lhe caem sobre as bochechas rosadas.

O dia começou cedo nos arredores da grande Lisboa, mas precisamente no Mercado de Benfica. As 6h30 já estavam todos de pé. E o ritual seguiu-se: Por volta das 7h já estavam todos junto ao balcão. O extenso mercado citadino aglomera balcões de frutas, carne, peixe, legumes e verduras e, claro, o balcão da tia... De queijos e charcutaria. Há mais de 30 anos que se repete a rotina e é de praxe:

 - "É preciso abrir tudo, destrancar os frigoríficos, remover os panos que cobrem o balcão, os armários... é preciso receber a mercadoria dos fornecedores, organizar cautelosamente os produtos, pendurar os chouriços, desembalar os queijos frescos (...)» explicava, com ar exausto, a tia-avó.

 -"Como aguenta tanto trabalho, oito horas ininterruptas de pé, todos os dias a repetir sempre o mesmo ritual há mais de 30 anos?" Questionava-se a jovem enquanto tentava sorrir.

- "A Senhora precisa diminuir o ritmo, não pode dar tanto de si com a saúde tão debilitada tia"
- "Não é fácil minha filha, como vês. Mas ninguém nos dias de hoje quer este tipo de serviço, é impossível arrumar alguém de confiança. Já se aproveitaram de mim ... Por isso mais vale ser eu a fazer. Hei-de trabalhar até morrer!

- "Devias ter alguém que fizesse o trabalho mais pesado..."

- "O teu tio já não ajuda muito.Ninguém da família quer o negócio. Ainda mais nos dias que correm, em que os lucros não são nada bons...". Resposta que leva a sobrinha a dar um longo suspiro, num misto de pena e remorso por não poder fazer muito mais pela tia. A jovem silencia.

Enquanto corria o dia a sobrinha-neta observava atenta os movimentos já inconscientes de anos de trabalho da tia-avó. Estranhava o cheiro do lugar, os ruídos perturbadores de frigoríficos, máquinas a trabalhar e pessoas a falar... Ruídos que se misturavam incessantes e ecoavam forte naquele extenso salão.

- "Bom dia Sofia! Bom dia Zé! Bom dia..." E seguiram-se os cumprimentos habituais aos antigos colegas de trabalho que cuidam e zelam pela senhora das bochechas rosadas como se da família deles fosse.

- Já estava preocupada com a senhora - diz Sofia do balcão ao lado. É sempre a primeira a chegar e hoje demorou".

- "É que hoje trouxe a minha sobrinha-neta! Ela não está habituada a levantar-se tão cedo. É bonita não é?" - indaga orgulhosa deixando a jovem um tanto quanto envergonhada.

-"É sim senhora! Parabéns! Então hoje tem boa ajuda!" - finaliza Sofia.

A sobrinha, que se manteve atenta a todos os pormenores, matutava como era possível que sua tia ainda tivesse ânimo e vontade de trabalhar. Ela estava lá há tão poucas horas e já lhe doíam as pernas (!). Mas esforçou-se para compensar, num único dia, o cansaço acumulado de anos de trabalho da doce tia que tanto gosta. Vendeu seu primeiro queijo! Sentiu-se útil e sorriu. E entre um cliente e outro ouvia histórias, conversas disparatadas sobre política, sobre doenças, sobre a dor de ser-se velho nos dias que correm em Portugal. Mas também ouviu elogios dos clientes fiéis que, há anos,  faziam questão de comprar com a sua tia-avó.
- "Ah que bonita!"
- "Que bom que ela veio ajudar-te"
-"É muito simpática, tem parecenças com a senhora!"

Ao fim de algumas horas a sobrinha sentiu-se grata e contente por poder partilhar aquele dia com sua tia. Sentiu-se triste por não poder fazê-lo mais vezes e entendeu o quão difícil é a vida para uns e o quão fácil pode ser para outros.

Mercado de Benfica

A construção do Mercado de Benfica iniciou-se em 1970, tendo sido o último mercado municipal a ser inaugurado antes do 25 de Abril de 1974. Abriu as suas portas ao público no dia 19 de Outubro de 1971, tendo em 2008 celebrado 37 anos de existência.

O Mercado de Benfica possui mais de 150 postos de venda, constituindo um importante ponto de comércio. Em particular, aos sábados de manhã, este mercado atrai um número considerável de clientes, (vindos de paragens mais longínquas do que a simples freguesia) que inundam de trânsito as ruas limítrofes.

2 comentários:

Portuguesinha disse...

É uma história bonita. Mas não sinto dó da tia-avó. Porque ela tem sorte e poucos percebem. É difícil e cansativo, mas ela já tira de letra e é também o que lhe dá «combustível» para viver, é o que a mantém ocupada e o que faz o seu cérebro continuar a funcionar nos parametros que só quem trabalha entende. Aposto que ela sempre sabe em que dia da semana anda! ;)

Quita disse...

Sabe sim.. E está bem melhor onde está agora. Que os céus a tenham.

Obrigada!

As bananas mais comidas...