Acordei com resquícios de
ti. Eram 7 horas da manhã quando encontrei vestígios teus. Eu que já nem te
lembrava, que esqueci como sou e como és, que perdi o teu rasto, o teu gosto,
que te perdi. Não tinha esse olhar tão opaco, sem brio, sem vontade,
automático; Já quis mais do que tenho. Sabor áspero de fruta verde doce.
Mas recuso-me a voltar
lá, proíbo-me, repudio -te. E no corpo uma sensação estranha de suor intenso e
beijo não dado, de vazio no corpo e coração apertado.
Segui involuntária nos
gestos de sempre, as pantufas, as meias, o café, a pasta dos dentes. Um trago
de água fria sobre minha aparência adormecida. Em que espelho perdi o meu
rosto? Por quê agora tantos indícios do que foste? Guardei-te numa caixa e é lá
que deves parar. A mesma onde roçam-me os delitos, onde invento o que não fui,
onde abrigo o que não tive, onde imagino calada o teu andar.
Acordei com resquícios, malditos!
Eu que te apaguei do meu reflexo, que me esforço para não planear… Que te deixei
queimar sem fio e pavio, que te verti às margens do meu próprio rio.
Eram 7h da manhã quando te
vi. Rias das tuas próprias inverdades, do que julgas morto, transparente, sem
maldade. Coisa
inacabada. Um negar de cabeça, um pestanejar imbecilizado. O que fazias ali?
Lateja a hesitação. O
espaço. Deixaste-te morrer. Quiseste. Vi. Senti. E eu que já não te vejo te proíbo. Recuso-me a voltar lá.
Hoje acordei com
resquícios de ti.

3 Diz que é uma espécie de outro lado:
Às vezes a memória trai-nos...
Às vezes preferia não tê-las. Mas só às vezes.
muito bom
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