Acordava-me sempre as 6h30. Nunca ouvia o despertador. Estridente. Ainda assim não. Mas não me preocupava muito. Tinha as mesmas mãos de sempre, infalíveis todas as manhãs. As dela. Minha mãe. Lá fora a água escorria fresca da mangueira para as plantas. Eu ainda andava a cambalear e o quintal já estava lavado, as plantas sorridentes e o cheiro da terra húmida esbarrava no aroma do café que se espalhava pela casa. Nunca fomos de formalidades. O bom dia não era necessário ser dito. Sentia-se. Éramos de casa e como tal nos comportávamos. Na noite anterior já tinha deixado o almoço preparado para o dia de trabalho que se seguia. Longe. Sendo mais precisa: há 1h30 de distância. Meu pai a deixava no caminho. Deixava-me na escola. Não. Não era fácil. Nunca foi. Todos a pé. Cada um para um lado. A mim cabia aprender. Mais nada. Acompanhava-nos o rádio de sempre de volume mal ajustado. Era velho. Já não está lá. Acho. O uniforme, a mochila, o meu tênis vermelho. O palhaço 1.2.3 estampado na blusa. Na minha escola, às segundas, cantava-se o hino nacional. De mão direita sobre o peito, enquanto o melhor aluno içava a bandeira. Nunca ergui a bandeira. Filas perfeitas. Um grito da professora: "Cobrir, firme!" E o dia seguia normal. Era assim. O amor as nossas cores era ensinado muito cedo.
Lembro com precisão cada pormenor, cada cheiro, gosto e sorriso. Cada bocejo. Lá o dia começava cedo. Sempre fui da manhã. Foi assim que tudo começou. De manhã. Lembro daquele corre-corre. Lembro-me das mãos sempre infalíveis da minha mãe. As mesmas que me puseram de castigo por levar para casa o que não era meu. As mesmas que me fizeram passar vergonha e pedir desculpas. Aprendi. A mim cabia aprender. Mais nada.
Cada passo saltitante pela rua, que me deixava o rabo de cavalo a rebolar em contratempo, era dado com entusiasmo. O picolé de côco depois de um dia intenso de aulas. O calor. A alegria de ser recebida ao fim do dia. E as mesmas mãos que me acordavam com o cantar do galo do vizinho, me impediam o sono fora de horas. Não era suposto o sono da tarde, ou a noite não dormia. Cochilava sentada vez por outra. Acordava zangada com os risos de quem me observava com atenção.
Falava muito. Queixava-se a professora. Brincava de casinha com as canetas na sala de aula. O meu estojo multi botões era a casa favorita da dona caneta, seu marido e seus filhos lápis. A borracha servia de cadeira. O apontador de espelho. E quando me perguntavam irritados "quantos dias tem o ano?" eu chorava. Esperavam muito de mim. Não sabia. Só queria brincar. Mas cabia a mim aprender. Mais nada.
Custa crescer. Demorou. Mas aprendi. Percebi o quanto vale mãos amigas como as que sempre tive. Já não as tenho. Não todas as manhãs. Já ouço sozinha o despertador. Já sou eu quem adianta o almoço, o lanche. Sou eu quem molha as plantas. Sou quem liga o rádio, quem espalha o aroma de terra molhada com café. Já não canto o hino nacional, mas aprendi a respeitá-lo. Já sei quantos dias tem o ano. Quantas horas tem o dia. Aprendi. Aprendi a importância de devolver o que não me pertence. A não levar ou desejar o que não é meu. Aprendi a amar o que tenho. A ser da manhã, do dia. A controlar o sono nas horas impróprias. E já sou eu quem faz o rabo de cavalo. Que sigo sozinha para as aulas, para o trabalho a 1h de distância. Não é fácil. Nunca foi. Mas sou eu quem faço. E já podia erguer a bandeira.
Quando relembro as vezes que minha mãe dizia "tudo eu" em jeito de quem exigia mãos amigas como as dela, aprendo a saudade de ser pequenina, de ter quem pensasse, fizesse e olhasse por mim. E entendo como ninguém tudo aquilo o que ela sempre fez por nós. Custa crescer. Custa não ter a inocência de antes. Mas a mim ainda cabe aprender. Mais nada.
Quando relembro as vezes que minha mãe dizia "tudo eu" em jeito de quem exigia mãos amigas como as dela, aprendo a saudade de ser pequenina, de ter quem pensasse, fizesse e olhasse por mim. E entendo como ninguém tudo aquilo o que ela sempre fez por nós. Custa crescer. Custa não ter a inocência de antes. Mas a mim ainda cabe aprender. Mais nada.
Que vontade de voltar para trás.
Que saudade.

7 Diz que é uma espécie de outro lado:
Tão doce, tão lindo*
Que texto extraordinário!!! Fui lendo e foi viajando no tempo. Que bem escrito. De forma simples e doce!
Adorei! :)
Elsa... bons olhos a vejam =). Acordei assim hoje. Com vontade de voltar no tempo.
Gaja... que bom! Obrigada pelo mimo. Este veio de dentro. Bem do lado de dentro.
Beijo**
Fiquei com saudades de um passado que não era meu....
Beijo*
Caramba, voltei no tempo no momento que li seu texto. Ainda faço tudo igual, só falta você filhotinha, sinto tanta saudade, a casa ficou tão vazia. Fazer o que... faz parte.
Caramba, voltei no tempo no momento que li seu texto. Ainda faço tudo igual, só falta você filhotinha, sinto tanta saudade, a casa ficou tão vazia. Fazer o que... faz parte.
Enviar um comentário